quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Hopkins: tradução

como muitos brasileiros, descobri o poeta inglês Gerard Manley Hopkins via o excelente trabalho do poeta-mito Augusto de Campos.

querendo conversar com Hopkins e Campos um pouco mais proximamente, me propus traduzir um dos poemas da coletânea.

ACORDO,
de Gerard Manley Hopkins

Acordo, me corta a noite escura, não o dia,
Que horas, Oh que negras horas nós não vimos
Esta noite! que visões, coração; e caminhos!
E veremos, na longa espera da luz tardia.

Tal falo com testemunha. Mas quando digo
Horas, digo anos, vida. E minha desdita
São gritos incontáveis, cartas remetidas
Pra tão longe, ah!, ao ser que me é querido.

Sou fel, sou cor-combustão. Foi Deus que escolheu
Amargo o meu sabor: e meu sabor fui eu;
Ossos alçou, saturou meu sangue em castigo.

A levedura da alma amarga a massa ao leu.
Sou como os perdidos, seu castigo é o meu
Ser só um sudorento ser; mas é pior comigo.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Tradução do retrato do duque de Vilars, por Giacomo Casanova

A vida de Casanova foi sua grande empresa. Conhecido como conquistador, seu livro é, antes de mais nada, um relato de viagens. A viagem tinha e ainda tem uma função primordial na formação de qualquer indivíduo: quem tem non plus ultra dos muros da cidade está condenado a um conhecimento viciado ou incompleto dos seus semelhantes. A maestria que Casanova demonstra em fazer retratos denota essa experiência. Aqui fala um veneziano sobre um francês.            

“A pessoa do duque de Vilars atrai toda a minha atenção. Examinando seu porte e seu rosto, eu acreditei ver uma mulher de setenta anos vestida de homem, magra, ressecada e vomitada, que em sua juventude podia ter sido bonita. Ele tinha as bochechas rebocadas, cobertas de blush vermelho, os lábios de carmim, as sobrancelhas de preto, os dentes postiços e os cabelos colados à sua cabeça com muita pomada de âmbar, e um grande buquê em sua botoeira mais alta, que lhe chegava ao queixo. Ele afetava graciosidade em seus gestos, e falava com uma voz doce que não deixava entender aquilo que dizia. Aliás, era muito polido, afável e maneirado, bem ao gosto do tempo da Regência. Disseram-me que quando jovem ele gostava de mulheres, mas que tornado velho, ele pegou o modesto partido de se tornar mulher de três ou quatro belos miúdos que mantinha a seu serviço, do qual cada um gozava em seu momento da honra de dormir com ele. Este duque era governador da Provença. Tinha as costas inteiras em gangrena, e segundo as leis da natureza havia dez anos que ele deveria ter morrido; mas Tronchin fazia-o viver às custas de regimes, nutrindo as chagas, que de outra forma estariam mortas, e levariam o duque com elas. Isso se chama viver por artifício”.

Retrato do duque de Vilars; In. CASANOVA; Giacomo. Histoire de ma vie. Paris: Gallimard Folio, 2013, pp. 246–247.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

poema shibbolet II (experimentação)


de acordo com a bíblia (juízes 12:1-7), na guerra travada entre os efraimitas e os galaaditas, os efraimitas eram reconhecidos (e consequentemente mortos) por não conseguirem pronunciar a palavra 'shibbolet' (pronunciavam 'sibbolet'). hoje, diz-se que um shibbolet é a palavra de uma língua qualquer cuja pronunciação é impossível para estrangeiros. há muitos casos históricos e fictícios de genocídios baseados na prova do shibbolet: distinguia-se o outsider por uma frase ou palavra e, em seguida, o matava.

o poema abaixo se utilizou de shibbolets em catalão, português, dinamarquês, russo, polonês, castelhano, frísio, finlandês e holandês.

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schibbolet II, 
de william zeytounlian.


Setze jutges d’un mengen
Fetge d’un penjat
Pão, garbanzo, scheveningen,
En griene tsiis wa’t dat.

Soczewica, net sizze kin
Francisco höyryjyrä
Rødgrød med młyn
Doroga, fløde, brea.

Se a fenda boquiaberta
Abismasse o verbo enfim
Ao intent d’alma inquieta

No words would claim within.
Encore…
dans la rive
        sonnerait
Son
profond
 schibbolet.




poema shibbolet

shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhibbolet   

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

certamente, não cai bem a um homem da minha idade ser conservador. mas tampouco a todos. como o que fascina na morte não é a morte em si, mas aquele minuto, aqueles 10, 5 segundos de sofrimento que a antecipam, o que me fascina nas revoluções não são as sociedades e o paraíso em terra (et in arcadia ego, afinal) mas aqueles anos, dias, horas, em que as ideias e as ações adquirem a força das possibilidades dadas a um homem e que se tornam, de fato, perigosas.

domingo, 7 de outubro de 2012

situação

agora, na idade que me chega, consigo dar o devido valor a um balanço geral das minhas ideias políticas. sou jovem, enfim. me é claro, agora, que em todo momento de novas certezas, foi-me dado um daqueles instantes de efêmera, mas fértil imutabilidade e convicção das ideias. aí eu devia ter me sentado e sistematizado o pensar. 

hoje, quando ideias assumem força, espero ser conduzido a um novo processo crítico, não ao esgotamento. sentado e escrito: se assim eu tivesse feito, seria possível traçar mais claramente o estranho caminho que trouxe minhas ideias até aqui:

07/
10/
2012,
domingo.

- a existência do tipo denominado político já denota a separação fundamental da política atual em relação à vida: há o cidadão, há o homem e mulheres, há o intelectual, há também o político.

- no âmbito da política, é essa separação – mais do que a uma postura apática, distante e desinformada – que se chama 'alienação'.

- enquanto persistir a atual forma democrática baseada na eleição de 'políticos', haverá separação e, portanto, alienação.

- as instituições jamais serão esferas seguras de salvaguarda das liberdades. se o século xx nos ensinou algo é que o exército defende a soberania, mas é o primeiro a rasgar a constituição; que o parlamento representa a todos, mas pega fogo como gasolina; troca-se de leis como se troca de roupas; a escola®, a universidade®, a família® participam passivamente do pacto de mediocridade travado entre a sociedade espetacular e ela mesma. i, qual dessas instituições permaneceu de pé e virou as costas ao fascismo? ii, qual dessas instituições representa uma ameaça ao sistema atual que se esfarela sob nossos pés?

- se a instituições não são esferas seguras, é necessário, de alguma forma, que uma parcela considerável da sociedade esteja disposta a se levantar por aquelas liberdades que  lhe interessam e dizem respeito. digo soberania popular quando digo a política reduzida ao seu átomo mais essencial: 'nós, o povo' detentores da violência divina libertária, 'nós, o povo', agentes de nossa vida inalienável.

- o politicamente incorreto e correto marcam o debate atual no brasil, em geral pouco politizado. fala-se esses termos como se estivesse inventando a roda. por politicamente incorreto entenda-se: cinismo de direita. por politicamente correto entenda-se: reestruturação do vocabulário e modos diante das demandas identitárias e multiculturalistas. um esquerdista 'politicamente incorreto' é um radical à moda antiga; um direitista 'politicamente correto' é um demagogo.

- o politicamente correto deve fundar-se na violência de ações e pensamento: terror e virtude dão as mãos. robespierre precisou participar da execução de milhares para se tornar  politicamente correto e conquistar liberdades até então impensadas.

- parte da estratégia do pensamento conservador consiste naquilo que robespierre metaforiza como 'agitar o manto ensanguentado do tirano'. a resposta da esquerda não deve ser outra senão a consciência histórica absoluta. se os direitistas desmemoriados não sabem o que dizem, desenhemos para que eles entendam.

- em época de eleições, o fato de termos que votar no menos pior é o grande sintoma da alienação do cidadão em relação à política, pois assim projeta a ÚNICA possibilidade em um outro medíocre – o 'político' – COMO SE, de fato, essa fosse a ÚNICA possibilidade. votar no menos pior vale um domingo de consciência tranquila e nada mais: a democracia atual vale um almoço familiar em um restaurante italiano.

- defender de forma ferrenha e inocente a atual forma democrática é assinar o pacto de mediocridade geral e esperar com medo o dia em que alguém seja 'medula e osso' em meio à 'geleia geral'. 

- um homem que não é libertário aos 80 deixou de pensar aos 20.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

restauro e iconoclastia: o heroico feito de cecilia gimenez

fins de agosto de 2012. não se fala em outra coisa, a não ser a intervenção feita pela octogenária cecilia gimenez sobre o afresco do topico do 'ecce homo', que decora o altar de uma igreja em borja, na espanha.



o caso me fascina e provoca emoções e reflexões de todos os tipos. em linhas gerais, eis o que penso.

- A restauração promovida por cecilia gimenez é feita em uma época onde a aura da arte serve não   somente ao ego de curiosos românticos, mas ao mercado cultural. ainda que as novas formas de arte reprodutíveis tenham domolido concepções ultrapassadas e conservadoras de autoria, genialidade e singularidade - que envolviam a arte na 'aura' descrita por benjamin -, por outro lado, as velhas instituições responsáveis pela salvaguarda, ensino e exposição da arte (como a igreja, a escola, os museus, escolas de arte e universidades) continuam se utilizando dos mesmos artifícios romântico-arcaicos, mas para novas finalidades: o enjaulamento da obras em intocáveis altares de genialidade serve à valorização dos vestígios culturais enquanto mercadorias, que servem somente ao mercado do turismo e da arte.

- a restauração promovida por cecilia gimenez se dá em um momento em que a experiência da arte permanece altamente condicionada. no momento em que os especialistas autorizados fazem as coroas de louros pousarem sobre a testa dos 'gênios' por eles eleitos, está assinado o atestado de que suas obras foram solenemente separadas da esfera do livre uso: às massas famélicas de cultura aptas a permanecer horas a fio nas filas dos grandes museus e a pagar seus  caros ingressos, é dado o privilégio de apreciar as 'obras-primas' como mercadoria cultural, e somente enquanto mercadoria cultural. por esse singelo gesto lucrativo, a experiência da arte é condicionada às regras do mercador: não se deve tocar, não se deve fotografar, é claro, mas mais do que isso: não se deve cogitar nenhum uso a não ser aquele, à huis clos, institucionalizados. consequentemente, se reproduz enjoativamente a velha fórmula que delimita e circunsrita qual é o espaço da arte ou não: a arte se encontra alienada dos espaços que não lhe são reservados. a provinciana intervenção de cecilia gimenez deflagra o rompimento de níveis entre a postura culta dos que defendem a intocabilidade da arte - sob risco de torná-la impura -, e a despojada despreocupação de uma octogenária que não vê as mesmas limitações, os mesmos problemas. 

- a restauração promovida por cecilia gimenez é um excelente caso da profanação da arte aurática. um dos pontos de partida do filósofo italiano giorgio agamben para sua reflexão sobre a profanação parte do conceito de religião (religio). religião, costuma-se dizer, vem de religare o que une, novamente, deus e o homem. ERRADO. religião vem de relegere, ou seja, reler. religião é reler as normas que estipulam o lugar de deus e o lugar dos homens. portanto, a religião não une deus ao homem, pelo contrário: ela é o constante recordar das normas que separam deus, como dominador, e o homem, como cria. nesse ponto, o contrário da religião seria uma certa displiscência em (não) ler as regras. esse cagar e andar para as normas é a profanação. pela profanação, o que outrora era petrificado, estagnado, solidificado, sacralizado em um uso específico é devolvido aos homens para que eles se apropriem da mesma coisa da forma que quiserem! um exemplo disso seria um poste sagrado sendo usado como mancebo para casacos e chapeus... de qualquer modo, se em nossa atual civilização, na qual a norma da apreciação e experiência da arte é a forma-consumo autorizada, a postura de cecilia gimenez - de displicência em relação às regras, de relaxamento e liberdade em relação àquilo que deve permanecer rígido - é um caso exemplar de profanação.

- a possibilidade de ser agente (re)criadora de sua própria iconologia devocional representa uma ruptura com as próprias formas tradicionais do culto cristão apostólico romano. inclusive, tal privilégio é único dentre as religiões mundiais, nas quais o controle de reprodução da imagem divina é historicamente controlado. 

- a restauração promovida por cecilia gimenez, por seu caráter absolutamente displicente, individual, ou seja livre da coerção e correções de escolas, independente de usos mercantis e demandas mercadológicas, movida pelos mais descompromissados gestos e por ter sido executada sobre o original (ver imagem abaixo) figura entre as mais profanadoras da história da arte. 



proposição final: o que cabe ser dito é que se tivessemos uma postura similar perante a arte - não como algo intocável, isolada de qualquer uso livre, dessacralizada (relativamente, no caso gimenez) -, nossos museus e galerias seriam verdadeiros espaços criativos, não jaulas para cração de falsos gênios.